kinados on tour

um sorriso daqueles que deixaram tudo e... foram para a India, Paquistao, Nepal...

Thursday, December 28, 2006

Kinados@Northern Areas of Pakistan (a ver se e desta!)

Erros que podem custar caro… ou talvez nao
Quando o nosso visto indiano estava quase a expirar, optamos por visitar o Paquistao. Para tornar a viagem mais agradavel e mais leve deixamos alguma bagagem em Pushkar, na Guest House de uns amigos. Ao contrario do que fizemos quando pensamos em viajar para a India, nao preparamos a nossa visita a este pais.

Atravessamos a fronteira e, em Lahore, ficamos a saber que o norte do Paquistao e incrivelmente bonito e vale mesmo a pena ser visitado. Ficamos ainda a saber que esta frio, muito frio… chegamos na epoca errada dizem-nos… comecou o Inverno! Fazemos uma revisao a mochila. Cegos! Deixamos as botas na India (a Kinada resolveu mesmo envia-las para casa!), estamos de chanatos… vulgo sandalias! As meias quentes, as luvas, o gorro… tudo esta na India! Ainda assim, armados com o que restou das arrumacoes de Inverno la decidimos rumar para norte.

Chegados a Gilgit apercebemo-nos que de facto e necessario reforcar o guarda-roupa. Vale-nos o facto de Gilgit ser um verdadeiro paraiso de roupa e equipamento de montanha em segunda mao. Umas sapatilhas de trekking que em Portugal valem uns 80 euros, aqui, custam 350 rupias, nao chega a cinco euros! E estao novinhas em folha!

A vida abaixo de zero!… nao e facil!

“Ainda que nao haja pao o que nao pode e faltar a lenha para a lareira!”

Acho que este proverbio paquistanes traduz bem o frio que vai por estas paragens, nao? De noite chega-se aos 13 negativos e de dia, se estiver sol, consegue-se chegar aos 2, 3 positivos!

Ao por-do-sol, por volta das 5 da tarde, os muezzins (especie de “padres” muculmanos) chamam os fieis pela ultima vez para rezar. O poderoso chamamento ecoa pelas montanhas e ruas de Gilgit, saido dos altifalantes das inumeras mesquitas. A medida que umas lojas fecham, outras acendem as luzes ou as alternativas velas, lamparinas, petromaxs (uma vez que a agua gela e fica retida nas montanhas, a producao de energia electrica e insuficiente e os cortes electricos sao diarios). Na rua, a vida desacelera. So os militares permanecem nos seus postos de controlo ou atras das barricadas, fechados nos seus grossos casacoes.

Outras tantas almas penadas passam, embrulhadas em cobertores e protegidas com boinas locais a Vasco da Gama (fica a duvida se foi ele que lancou a moda por estas paragens ou se foi ca que tirou o modelo!!).

Enchem-se as casas. Ricas em vida, as familias tradicionais paquistanesas (com quase sempre seis, sete, oito filhos…) reunem-se a volta da salamandra. Na sala de tecto de madeira, nao ha cadeiras nem mesa, mas sim coloridos tapetes e rolos para recostar e uma toalha de plastico que e estendida na altura da refeicao.

A refeicao tradicional da zona norte, e do pais em geral, consiste geralmente, numa especie de jardineira ou num estufado de carne. Mas tambem e possivel encontrar estufados de legumes, localmente apelidados de sabzi, e lentilhas. Os temperos sao sublimes e ao contrario do que acontecia na India e centro do Paquistao nao e necessario pedir a comida “sem masala, sem chilli, apenas sal pf”. Os talheres sao substituidos pelo pao e pelo dedo polegar. A refeicao termina sempre com o tradicional chai ou em alternativa com cha verde das montanhas, que na zona tem o nome de tumuro. Seguem-se os frutos secos. Fabulosos! Nozes, tamaras, amendoas, ameixas, pessegos, framboesas, cerejas… Ha lojas que so vendem frutos secos!

O serao e passado a conversar (quantas vezes a luz de vela ou petromax). Temos a felicidade de ter connosco uma dupla que encanta: o Zafar canta ao mesmo tempo que utiliza um jerrycan como se de uma tabla (instrumento de percursao tradicional no subcontinente) se tratasse e o Jian toca uma especie de sitara. Sao lindas as musicas tradicionais de Chitral!

Acompanhamos com uma especie de guizos que trouxemos de Pushkar. E este calor que faz compensar o frio e a falta de um bom banho e “facilities”. As dez e pouco a noite ja vai alta e por isso ha que recolher ao quarto. Para que despir e sujeitar o corpinho ao frio?

Ha quem opte por se deitar com um ou mais cobertores por cima da roupa com que esta vestido… nos conseguimos uma solucao intermedia, deixamos a roupa interior termica vestida e enfiamo-nos dentro dos sacos-cama com dois cobertores por cima.

Gilgitianos!

Ha tres coisas que marcam definitivamente o norte do Paquistao: a saborosissima comida, as paisagens soberbas e a incrivel hospitalidade destas gentes.

Nao gastamos dinheiro em suzukis (sao os transportes publicos locais – pequenas carrinhas Suzuki transformadas: com bancos laterais e mais uns suportes atras para o pessoal que, nao cabendo no interior, viaja pendurado) para ir para a cidade ou dela retornar. Apanhamos sempre boleia e, nao poucas vezes, as pessoas fazem desvios para nos deixar no nosso destino! O veiculo tanto pode ser um convencional carro como um duro tractor! A simpatia e a mesma. Ha viagens faladas de principio a fim e outras feitas em silencio pois ingles e urdu pouco ou nada tem em comum!

Ainda que esteja um frio dos diabos atrevemo-nos a passear pelas montanhas. Nao somos os unicos. Ha um amiguito de sapatinho de sola, camisa e casaquito de couro que deambula pelo vale. Espera por nos e seguimos juntos. O que comeca por ser um vale pedregoso e quase inospito a determinada altura passa a ser uma floresta de pinheiros! Tao bonito! Depois de passarmos uma zona mais dificil em que a Kinada se cortou literalmente por medo das alturas chegamos a linha de neve. Missao cumprida!

Noutro dia seguimos o canal de agua que serpenteia a montanha 200 metros acima do vale, e onde, nao poucas vezes, encontramos a estrada barrada por pedregulhos resultantes de alguma derrocada.

O dia so podia ficar completo se conseguissemos ver o jogo do “Portinho” na ESPN, na Ten Sports ou qualquer outro canal amigo! O pessoal da COMSATS (a net local e fornecida por estes casticos que sao muito mais do que apenas colegas de trabalho, sao uma verdadeira familia) salva o dia (pensamos nos!). Apesar da hora tardia a que e transmitido o jogo (00:45), oferecem-nos o seu quarto e antes uma boa jantarada. Novo contratempo, este muito mau: a empresa de TV por cabo esta com problemas - nao ha jogo para ninguem! Ainda tentamos o Serena Hotel, o top ca do sitio: o restaurante fechou as 23, dizem-nos. So ha TV nos quartos. Nao queremos pagar 5800 rupias! Regressamos a casa debaixo de um ceu incrivelmente estrelado e com os nossos amigos na memoria que e a unica coisa que aquece o coracao esta noite! Voltamos outras noites para conviver e claro, jantar (que ninguem nos deixa voltar para casa sem a barriguinha bem composta). Ja somos considerados Gilgitianos, o que mais parece um nome saido da trilogia do Senhor dos Aneis.

Cozinhamos para estes amigos. Apreciam, dizem, e fazem comentarios em urdu que nao percebemos (mau sinal, nao?). Juntam muito molho de soja e chilli a pasta que preparamos; os cogumelos, deixam-nos de lado; a sorrir, perguntam onde pusemos os lombinhos de galinha. E duro ser vegetariano no Paquistao!

Hunza

Uns 100 quilometros mais a norte, uns graus centigrados mais abaixo, perto dos 2500 metros de altitude visitamos o vale de Hunza, ( Vamos de Hiace. Somos 18, um bebe e uma galinha. A Hiace tem o vidro da frente todo rachado. O condutor e impecavel mas as ravinas nao permitem um Segundo de descanso a Kinada) um dos locais mais bonitos do Paquistao, onde, no inicio de Novembro estiveram de visita o Principe Carlos com a sua amada Camila.

E um vale lindo de morrer que, na Primavera, e visitado por muitos chineses e outros turistas de olhos “rasgados” que ca vem para ver as arvores de fruto em flor e que no Verao e visitado por turistas de todo o mundo para fazer trekkings, escaladas em alta montanha, atravessar glaciares, descobrir lagos incriveis perdidos entre as montanhas, passar pontes-suspensas-estilo-indiana-jones entre outras actividades de natureza. Escalar ate aos acampamentos-base do Rakaposhi ou do K2 (a segunda montanha mais alta do mundo!) sao duas “proezas” que atraem muitos turistas a este paraiso.

Karimabad, ou Baltit como lhe chamam os locais foi a pequena vila onde ficamos acomodados. Vila esta que cresce ao longo da montanha soalheira tendo como principal atraccao o Baltit Fort, instalado no ponto mais alto da vila. Um forte com cerca de 800 anos de historia, que outrora foi mandado edificar pelo Mir local para servir de residencia real. Ao longo dos tempos foi sendo acrescentada uma ou outra ala, uma ou outra torre e foi alvo de uma serie de accoes de renovacao sendo que a ultima transformou o forte em museu local, tendo para tal muito contribuido os habitantes da vila que doaram a maior parte do espolio apresentado e vao garantindo e gerindo o seu funcionamento.

Os Mirs, que continuam a existir nos dias de hoje, sao uma especie de autoridade soberana local. Muita gente nao reconhece autoridade no governo nacional do Paquistao mas sim no seu lider “tribal” e a ele recorrem quando assim o necessitam.

Assistimos como convidados VIP a um jogo de futebol inter-escolas (tendo em atencao que toda a gente “respira” e “transpira” Cricket, e um privilegio ver futebol por estas paragens).

As condicoes de vida aqui sao mais dificeis ainda que em Gilgit mas as pessoas sao ainda mais incriveis! Vimos uns miudinhos com carinha de cieiro, parcamente vestidos, de faces e maos rosadas pelo frio que estavam deliciados a comer gelados de gelo que encontram nas cascatas ou riozitos! Provamos e adoramos!

Nesta altura do ano esta tudo fechado e por isso a visita foi curta (tres dias apenas). Havemos de voltar!

Natal a 19 de Dezembro

E verdade! O nosso primeiro Natal foi no dia 19.

Quis o destino que o alarme nao tocasse de madrugada e por isso perdemos a camioneta para regressar a Rawalpindi. Depois de um choradinho para validar o bilhete para o dia seguinte (My wife is sick!... - palavras do Kinas) demos uma volta pelo mercado a procura de umas lampadas de Natal que nos iluminassem a noite mais familiar de todas!... Nao encontramos mas em contrapartida um dos amigos de quem ja nos haviamos despedido encontrou-nos e levou-nos para sua casa.

A familia estava toda a nossa espera e a irma mais velha cozinhou para nos, nao um jantar, mas um manjar! Sopa, dois pratos e tres sobremesas! E a companhia? Fenomenal! No fim do serao cada membro da familia surpreendeu-nos com uma lembranca - capa de almofada e painel de parede bordados a mao, uma camisola, aneis (para os dois!), pulseiras, colares e brincos, make up,...!

Depois desta noite de Natal inesperada percebemos que continuamos em sintonia com as energias positivas do universo.

Nota final!

Convem referir que os habitantes das “northern areas” do Paquistao sofrem de uma real falta de identidade. Apesar de estarem formalmente integrados em territorio paquistanes a questao nao se encontra definida ad eternun. Todo o territorio norte e considerado com sendo zona disputada oficialmente pelos governos da India e Paquistao. A juntar a isso soubemos que nao ha muito tempo a luta passou a ser a tres. Os melhores amigos do Paquistao, a China, ja se ofereceram para ajudar a resolver a disputa e vieram a publico reclamar o territorio. Nao tarda muito vamos todos ouvir falar deste assunto… porque pelo andar que os chineses estao a imprimir a coisa… pelo investimento que tem feito naquela zona… nao tarda nada isto e tudo China!

Nos para nao ficarmos impavidos a assistir a tudo isto… reclamamos dois picos para Portugal. O Rakaposhi e o Lady Finger. Quem e amigo… quem e?

O Lady Finger

Rakaposhi (7788 m de altitude!) - o gigante que domina os vales de Hunza e Gilgit

8 Comments:

At 12:54 pm, Anonymous Anonymous said...

O men do sapatinho de sola é o maior :)

Mayke

 
At 9:30 am, Anonymous Anonymous said...

sempre! sempre em sintonia!
e' favor nao duvidar nunca!

beijoes e saudadinhas

 
At 3:40 am, Anonymous Anonymous said...

FARIAS!!! E MARIA!!!!
Grande abraço bem apertadinho..aos dois!
O que é aquele tufo de pelo no alto da cabeça do farias? Arranja um bcd à malta!! :)
A partir de Fev, se quiserem fazer antropologia no lux, eu estou por lá! 1 beijo e 1 abraço, pá kinas e pó kinas, do Messayas!!Fiquem bem!

 
At 11:33 am, Anonymous Anonymous said...

Meus afilhados...

Beijos e abracos serao mandados ao Grande FX, aos peixes que se suicidam nas cataratas do iguacu, às focas da patagonia e aos gauchos de Santa Maria de Buenaire...

 
At 12:18 pm, Anonymous Anonymous said...

Yo Gilgitianos!
só para mandar um grande e quentinho abraço, da gaja fixe que tem saudades vossas (e inveja, admito!)
Cuidadinho com essa malta, quero-vos de volta inteirinhos.
Kinas, faz a barba anda lá!
Jane, aguenta-te e toma conta do menino.
Susana Meireles

 
At 10:34 pm, Anonymous Anonymous said...

Como é Kinados,
aqui vai um grande abraço e grande beijo dos que vieram visitar o grande Alex até S. Paulo e que no meio de uma chuva tropical vieram para casa beber um chope.

De casa do Alex aqui vai....

 
At 10:35 pm, Anonymous Anonymous said...

Afilhados...Sampa está under heavy rain....mas taaaaaa-se bem

vander and malta on tour

 
At 11:01 pm, Anonymous Anonymous said...

Como é grandes Kinados, se tivessem escolhido a América do Sul, de certeza que também nao ficavam nada mal.
Abraço da tosta de Buenos Aires

 

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